Dosagem de ozônio não é ozônio dissolvido

Essa é a distinção que separa projeto de chute. Existe uma conta de partida — vazão multiplicada pela dosagem desejada indica a produção necessária do gerador — mas o erro comum vem logo depois dela: o que o gerador produz não é o que fica dissolvido na água. A produção é o que sai do equipamento; o ozônio dissolvido é o que efetivamente trabalha. A quantidade aplicada precisa superar as perdas do sistema e a demanda da própria água, e essa diferença é onde a engenharia entra.

As perdas têm origem física conhecida. O ozônio é pouco solúvel: a 20 °C, a solubilidade do ozônio 100% é de apenas 570 mg/L, e o cloro é 12 vezes mais solúvel que ele. Some-se o decaimento, que depende de pH, temperatura, alcalinidade, carbono orgânico, radiação UV e das condições fluidodinâmicas. Revisão publicada em periódico revisado por pares conclui que os dados de decaimento apresentam variações muito amplas e que, em pH próximo da neutralidade, a amplitude da meia-vida supera uma ordem de grandeza — os autores afirmam ser difícil dar valores de referência gerais e definitivos. Quem promete meia-vida fixa está vendendo número, não engenharia.

Por isso vazão, pressão e sistema de injeção entram no dimensionamento com o mesmo peso do gerador. O venturi rende mais com pressão elevada e fluxo constante, e bomba pressurizadora pode ser necessária. Vazão instável derruba a transferência antes que o ozônio chegue a reagir. Antes de fechar dose, o caminho correto é levantar a demanda e a cinética da matriz de água específica: o ozônio segue cinética de primeira ordem e o excesso é custo perdido — ou risco direto, quando há organismos vivos no circuito. Na prática de campo, o tempo de atuação do ozônio na água chega a cerca de 20 minutos, variando com clima e condições.

O ponto de partida

Vazão × dosagem desejada indica a produção necessária do gerador. É onde o cálculo começa — nunca onde ele termina.

O que a conta não entrega

Produção é o que sai do gerador. Ozônio dissolvido é outro número, sempre menor, definido por injeção, dissolução e demanda da água. Nas linhas para lagos e piscinas, quem manda na escolha do modelo é o volume do sistema.

570 mg/L a 20 °CSolubilidade baixa

A 20 °C, o ozônio 100% chega a 570 mg/L de solubilidade. O cloro é 12 vezes mais solúvel. A concentração típica em tratamento de água fica entre menos de 0,1 e 1 mg/L.

Meia-vida não é constante

Em pH neutro, a amplitude da meia-vida supera uma ordem de grandeza. Os ~20 a 30 minutos citados no mercado valem para água destilada a 20 °C, não para água real de processo.

Demanda da matriz

É vital definir a demanda e a cinética de ozônio da água específica para evitar sobredosagem. A mesma dose em duas plantas diferentes produz dois residuais diferentes.

solubilidade ≈ 0 acima de 43 °CTemperatura conta contra

Aumentar a temperatura de 0 a 30 °C reduz a solubilidade e acelera a decomposição. Acima de 43 °C a solubilidade é efetivamente zero. Curiosamente, a taxa de desinfecção de bactérias é quase independente da temperatura.

Onde instalar na linha

A turbidez impacta a ozonização, e o ozônio pode interferir na coagulação e sedimentação. A EPA recomenda ozonizar após a sedimentação e antes dos filtros.

Distinção entre dosagem e ozônio dissolvido e tempo de atuação na água: base técnica ENG Soluções. Solubilidade, temperatura e posicionamento na linha: US EPA 815-R-99-014, seções 3.1, 3.3.7.2 e Capítulo 1. Decaimento e meia-vida: Gardoni, Vailati & Canziani (2012), 'Decay of Ozone in Water: A Review', Ozone: Science & Engineering 34(4):233-242. Cinética de primeira ordem e demanda da matriz: Spiliotopoulou et al. (2018), Water Research 133:289-298.

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